Ronco pode ser problema no nariz? entenda a relação com a respiração

Texto produzido pelo Dr. Victor Carvalho, médico otorrinolaringologista pela USP, com prática dedicada à cirurgia nasal em São Paulo. CRM 194973-SP — RQE 92679.

Revisado e atualizado em abril de 2026.

O ronco é uma queixa comum — e quase sempre subestimada. Quem ronca costuma normalizar o sintoma por anos, até que a parceira (ou o parceiro) bate o pé. Só então começa a investigação. E é aí que a pergunta surge: o nariz tem algo a ver com isso?

Em muitos casos, sim. Mas a história raramente termina só no nariz.


O que causa o ronco?

O ronco acontece quando há dificuldade na passagem do ar durante o sono. Esse fluxo turbulento faz vibrar as estruturas da via aérea — palato, úvula, base de língua — e é isso que gera o som característico. O nariz pode ser o ponto de partida desse processo, mas não é o único.


Como o nariz entra nessa história?

Quando a respiração nasal está comprometida, o corpo responde de forma automática: abre a boca. E respirar pela boca durante o sono aumenta a turbulência do ar, seca a mucosa da garganta e favorece a vibração das estruturas. Em outras palavras, um nariz obstruído pode alimentar — ou piorar — o ronco.

Os problemas nasais mais comuns nesse contexto são o desvio de septo, a rinite alérgica, a hipertrofia de cornetos e outras formas de obstrução nasal crônica. Todos eles dificultam o fluxo de ar pelo nariz e contribuem para o ciclo de respiração bucal noturna. Entenda melhor as consequências de respirar pela boca.


O nariz é sempre a causa?

Não. O ronco pode ter origem em várias regiões — garganta, palato, base de língua — e muitas vezes é multifatorial. Por isso, a avaliação precisa ser completa e individualizada. Não adianta tratar o nariz sem entender o quadro como um todo.


O que me preocupa de verdade: a apneia que vem junto

No consultório, o perfil mais frequente que atendo com essa queixa é o homem adulto que ronca há anos — e cuja parceira está no limite da paciência. Mas o que me preocupa, nesses casos, não é só o ronco em si. É a apneia que pode estar acontecendo em silêncio.

O ronco acompanhado de pausas respiratórias durante o sono pode indicar apneia obstrutiva — e é aí que mora o risco real. Não o risco imediato de sufocamento, mas algo mais insidioso: cada vez que ocorre uma pausa respiratória, a pressão arterial sobe. Isso acontecendo dezenas de vezes por hora, toda noite, ao longo de anos, resulta em hipertensão progressiva — aquela que vai exigindo doses cada vez maiores de anti-hipertensivos para ser controlada. E aumenta o risco de eventos cardiovasculares sérios, como AVC e infarto.

É por isso que ronco com sintomas associados — cansaço excessivo, sono não reparador, engasgos noturnos — precisa de investigação, não de adaptação. Veja se o seu nariz entupido à noite pode estar relacionado.


E o CPAP? Por que tantos pacientes não conseguem usar?

Esse é um ponto que vejo com frequência: pacientes que chegam com indicação de CPAP — ou que já tentaram usar — mas não conseguem tolerar o aparelho pelo número de horas necessário por noite. Um dos motivos mais comuns e menos investigados é justamente a obstrução nasal.

Dormir com uma máscara que pressuriza o ar pela via nasal exige que o nariz esteja funcionando bem. Quando há desvio de septo, cornetos aumentados ou rinite mal controlada, o CPAP vira um instrumento de desconforto. Por isso, tratar a obstrução nasal é sempre o primeiro passo — antes ou junto de qualquer outra abordagem do ronco e da apneia.


Operar o nariz resolve o ronco?

Depende. Alguns pacientes que operam o nariz relatam melhora significativa na intensidade do ronco. Outros, não. Nos quadros de apneia moderada a grave, o nariz é parte do tratamento — geralmente o ponto de partida —, mas raramente é a solução isolada.

O manejo do ronco e da apneia é multidisciplinar. Além do otorrino, pode envolver avaliação pelo cirurgião bucomaxilofacial (para indicação de aparelho intraoral), endocrinologista e nutricionista quando há necessidade de perda de peso. E o CPAP continua sendo a opção mais eficaz nos casos mais graves.


Perda de peso: um fator que sempre trago para a consulta

Sempre que atendo um paciente com sobrepeso ou obesidade e queixa de ronco ou apneia, o tema da perda de peso entra na conversa — sem rodeios. E o dado que costumo citar é bem concreto: estudos populacionais mostram que uma redução de 10% do peso corporal está associada a uma queda de 26% no índice de apneia-hipopneia — a medida que quantifica a gravidade da apneia. Isso é muito. E reforça que o tratamento do ronco vai além de qualquer cirurgia ou aparelho. Journal of Clinical Sleep Medicine


Quando procurar avaliação?

Vale investigar quando o ronco é frequente, incomoda quem dorme junto, ou vem acompanhado de cansaço durante o dia, sensação de sono não reparador ou relato de pausas respiratórias. Esses sinais juntos pedem uma avaliação que vá além do sintoma. Veja como melhorar a respiração pelo nariz.

O nariz costuma ser um bom ponto de partida. Mas raramente é o único passo.


Aviso importante: Este texto tem caráter exclusivamente informativo e educacional. Não substitui consulta médica nem tem qualquer intenção diagnóstica. As informações aqui apresentadas servem para ampliar sua compreensão sobre o tema, mas nenhuma decisão sobre tratamento pode ser tomada com base apenas neste conteúdo. Cada caso é único e exige avaliação médica individualizada. Conforme orientações do Conselho Federal de Medicina (Resolução CFM 2.336/2023), conteúdos médicos veiculados em meio digital têm finalidade educativa e não devem ser interpretados como recomendação clínica individual.

 

Ilustração da relação entre obstrução nasal e ronco - Dr. Victor Carvalho otorrinolaringologista